Os gestos, grandes ou pequenos, recorrentes ou únicos, simples ou sofisticados, são os responsáveis pela imagem que projectamos nos outros. Vistos à transparência são estes que constroem a nossa felicidade, ou a comprometem... uma e outra vez!
Sexta-feira, 28 de Março de 2008
Solidão

 

Cortaram os trigos. Agora

A minha solidão vê-se melhor.

 

                                           Sophia de Mello Breyner

 



publicado por jmm às 20:58
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Quarta-feira, 26 de Março de 2008
Jardins suspensos

 

                                                                                 Jardins suspensos, 2008

.

Por volta do ano 605 AC, reinava na Mesopotâmia o rei Nabucodonosor. A jovem Amyitis havia deixado a sua terra natal, Medes, em nome de uma política de alianças e foi para a Babilónia ser rainha, junto do referido soberano. Apesar do casamento imposto, o rei acabou por ficar cativo de grandes afectos pela senhora sua esposa.

Acontece que Amyitis era oriunda de uma região montanhosa, coberta de verdes florestas e abruptas paisagens sendo que a monótona paisagem da Mesopotâmia lhe causava uma forte melancolia. Tinha saudade dos verdes, das flores e das montanhas que a viram nascer.

O soberano que tinha á sua disposição os recursos do reino, mandou edificar uma imensa obra, semelhante a uma montanha artificial, nas encostas da qual mandou colocar ajardinamentos. Estes, ficaram célebres para sempre e contribuíram fortemente para a beleza global da cidade que segundo Heródoto(450 a.C.): “ultrapassa em esplendor qualquer cidade do mundo conhecido até hoje”.

A História da humanidade está recheada de inúmeros gestos impressionantes, demonstrativos do imenso afecto que por vezes une duas pessoas.

O mais comum dos humanos, tem tendência para sobrevalorizar a magnanimidade destes gestos. Não raras vezes, porque os afectos que sentimos pelo outro são fortes, temos a ideia de que as manifestações dos mesmos, têm de ser materialmente do mesmo grau de grandeza. É vulgar ver jovens casais, organizar almoços de casamento absolutamente desproporcionados face aos respectivos rendimentos; por vezes são trocadas muitas prendas inúteis, mas de valor material suficiente para deixar os envolvidos com alguma asfixia financeira, durante demasiado tempo. A mediatização, a pressão publicitária e o consumismo instalado, não são inocentes neste processo e o mais curioso é que toda a gente sabe isto, mas invariavelmente acabamos por repetir os mesmos gestos… vezes sem conta! Às vezes fico convencido de que ultrapassamos o limite, porque temos medo que o nosso companheiro(a) entenda como falta de afecto a ausência da prenda.

Em boa verdade, quando falamos de nós, referimos que é francamente melhor, sermos surpreendidos por pequenas atitudes que nos fazem felizes, do que ofertas desmesuradas. Então porque insistimos em trocar inutilidades quando podemos trocar os nossos “jardins suspensos” de forma tão simples e que pode preencher as nossas necessidades de afecto?

 



publicado por jmm às 19:00
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Segunda-feira, 24 de Março de 2008
Fragilidade

 

                   "Quita-merendas" imagem captada em: Rocalva, Gerês, 2008

 

 

Soubesse eu interpretar a subtileza dos teus sinais
esparsos,
contidos,
resguardados!... 
 

                                  (Maria Carvalhosa)

.

A fragilidade é um conceito curioso. Quem de nós, não foi já enternecido pela fragilidade de uma criança, de um jovem animal, de uma flor ou mesmo de um qualquer ser vivo em apuros? Em boa verdade, já vi defender a tese de que o instinto de protecção “inscrito” nos nossos genes, justifica em boa medida a felicidade que sentimos, a proteger quem nos parece frágil. Algumas actividades como o voluntariado, o mecenato ou os simples donativos para as ONG's parecem apontar para aí…

Contudo, nas flores, a aparente fragilidade não passa, muitas vezes, de um elaborado estratagema para assegurar a viabilidade e a proliferação da espécie. Nos animais e plantas que por aqui proliferam, a utilização daqueles esquemas pode ser negligenciada, pela inocuidade e assim, a fragilidade, pode ser admirada sem grandes riscos.

Na espécie humana, não raras vezes, a fragilidade evidenciada, mascara uma elaborada engenharia para conseguir de forma mais fácil objectivos bem menos “frágeis”. A inocência e a fragilidade são muitas vezes deliberadamente associadas à imagem pública de personalidades importantes e a políticos, cuja fragilidade me faz lembrar a do “Gengis Khan“. Mas isso já todos sabemos! E ainda assim, deixamos que nos embalem…

Nesta sociedade em que “vale tudo”, é cada vez mais importante estar atento àquilo que de facto são fragilidades, para podermos distinguir gestos autênticos, de gestos pouco diáfanos.



publicado por jmm às 13:14
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Sábado, 22 de Março de 2008
Gesto inicial

 

                                                Imagem captada na Serra do Gerês, 2008

“Eu deixo aroma até nos meus espinhos

ao longe, o vento vai falando de mim.

 

E por perder-me é que me vão lembrando,

por desfolhar-me é que não tenho fim.”

                                                                     Cecília Meireles

 

 

Por volta do equinócio primaveril, quando os astros nos convidam à mudança, por necessidade interior ou num impulso ampliado pela saudade do que perdi ou de quem tenho, não tendo, procurei um rumo neste meu pequeno mundo digital. Nas mãos a incerteza dos dígitos e no rosto, o testemunho de um tempo pouco mais que melancólico.

Em pouco tempo, encontrei um grupo … de gestos transparentes, com um par de botas no espírito e a provocação no olhar. Aceitaram-me com a generosidade de quem tem uma alma suficientemente grande para albergar a primavera.

Acompanhei-os, no deambular por um dos poucos espaços naturalmente preservados que ainda restam, neste mundo sobrepovoado e onde o Homem reservou para si o direito de possuir.

Partimos com a ansiedade de quem quer regressar às origens genéticas, que os últimos anos têm recorrentemente negligenciado, em nome dum crescimento que se alimenta da idolatração do seu próprio umbigo, humilhando e exterminando tudo o que estorvar.

Convivemos durante algumas horas com a natureza; ouvimos as aves, os lamentos da água no leito rochoso dos riachos … os segredos das árvores, soprados pelo vento, as confidências das pequenas rochas que connosco se divertiam nas abruptas encostas e o silencioso protesto dos charcos, perturbados por botas ansiosas.

No final sorrimos cansados, num gesto de rara transparência. Por momentos, regressámos à origem; o ciclo fechou-se!

 


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publicado por jmm às 12:28
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